segunda-feira, 14 de maio de 2012

episódio de Inês de Castro

Episódio de Inês de Castro (canto III)

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Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

O rei Afonso voltou a Portugal, depois da vitória contra os mouros, esperando obter tanta glória na paz quanto obtivera na guerra. Então aconteceu o triste e memorável caso da desventurada que foi rainha depois de ser morta, assassinada.
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Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

O Amor, somente ele, foi quem causou a morte de Inês, como se ela fosse uma inimiga. Dizem que o Amor feroz, cruel, não se satisfaz com as lágrimas, com a tristeza, mas exige, como um deus severo e despótico, banhar seus altares (“aras”) em sangue humano: requer sacrifícios humanos.
A palavra "pérfido", na obra, geralmente se refere aos Mouros inimigos. Nesse verso, parece indicar que Inês foi morta com a mesma crueldade que se usava contra eles.
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Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Inês estava em Coimbra, sossegada, usufruindo (“colhendo doce fruito”) da felicidade ilusória (“engano da alma, ledo e cego”) e breve (“Que a Fortuna não deixa durar muito”) da juventude. Nos campos, com os belos olhos úmidos de lágrimas de amor, repetia o nome do seu amado aos montes (para cima, para o alto) e às ervas (para baixo, para o chão).
As formas "fruito" e "enxuito" são variantes de “fruto” e “enxuto”. Durante muito tempo, enquanto a Língua Portuguesa se solidificava, essas variantes foram utilizadas simultaneamente. A Língua Portuguesa acabou por definir "fruto" e "enxuto" como a forma culta. Na época de Camões, palavras como despois, fruito, enxuito e escuito eram as mais usadas. Ele, então, prefere estas formas para se adequar à estrutura poética de Os Lusíadas - a oitava rima -, formada por versos decassílabos (heróicos ou sáficos), e respeitar o sistema rítmico dos versos - abababcc. Portanto, fruito (verso 2) e enxuito (verso 6) são as rimas cabíveis a muito (verso 4). Estas formas arcaicas ainda são utilizadas em muitas regiões.
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Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

As lembranças do Príncipe respondiam-lhe, em pensamentos e em sonhos, quando ele estava longe. Isto é, a memória do amado fazia com que Inês conversasse com ele, quando este estava ausente. Ambos não se esqueciam um do outro e se “comunicavam” através da memória, em forma de pensamentos e sonhos. Assim, tudo quanto faziam ou viam os fazia felizes, porque lembravam dos respectivos amados.
Esta estrofe é bastante ambígua. As lembranças do Príncipe vinham à mente de Inês como resposta aos seus cuidados amorosos; por outro lado, as mesmas lembranças, agora de Inês, existiam (moravam) na alma do príncipe quando estava longe da amada. Os sonhos e os pensamentos dos versos 5 e 6, dois modos de lembranças, pertencem indistintamente ao amado e à amada. E o sujeito de cuidava e via, no verso 7, tanto pode ser ela quanto o Príncipe.
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De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

O Príncipe se recusa a casar com outras mulheres (tálamo: casamento, leito conjugal) porque o amor despreza, rejeita tudo que não seja o rosto do amado (gesto significa rosto, semblante) a quem está sujeito. Ao ver este estranho amor, este comportamento estranho de não querer se casar, o pai sisudo (sério, grave) atende ao murmurar do povo e…
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Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo c’o sangue só da morte ladina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama delicada?

… decide matar Inês, para que o filho seja libertado do seu amor. O pai acredita que só o sangue da morte apagará o fogo do amor. Que fúria foi essa que fez com que a espada cortante que afrontara o poder dos Mouros fosse levantada contra uma frágil e indefesa mulher?
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Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Quando os horríveis e cruéis carrascos trouxeram Inês perante o rei, este já estava compadecido (com dó) e arrependido. No entanto, o povo persuadia, incitava o rei a matá-la. Inês, então, com palavras ou com a voz triste, sentindo mais pela dor e saudade do príncipe e dos filhos do que pela própria morte…
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Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia: 

Levantando os olhos cheios de lágrimas ao céu (somente os olhos, porque um carrasco prendia-lhe as mãos) e, depois, olhando para as crianças - que amava tanto e temia que ficassem órfãs -, disse para o avô cruel (o rei):
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Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como c’o a mãe de Nino já mostraram,
E c’os irmãos que Roma edificaram:

“Se já vimos que até os animais selvagens, cujos instintos são cruéis, e as aves de rapina têm piedade com as crianças, como demostraram as histórias da mãe de Nino e a dos fundadores de Roma…”
Semíramis, rainha da Assíria e mãe de Nino, a abandonara num monte. Nino foi alimentada por aves de rapina. Rômulo e Remo, fundadores de Roma, foram abandonados quando infantes e amamentados por uma loba.
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Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar hûa donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

Sendo assim, ele, o rei, que tinha o rosto e o coração humanos (se é que é humano matar uma mulher só porque esta ama um homem que a conquistou), poderia ao menos ter respeito e consideração às crianças, ainda que não se importasse com a triste morte da mãe. Inês suplica, então, que o rei se compadeça dela e das crianças, já que não queria perdoá-la ou absolvê-la de uma culpa, um crime, que não tinha cometido.
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E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

E se o rei sabia dar a morte, como o mostrara ao vencer os Mouros, também saberia dar a vida a quem era inocente. Mas, se apesar da sua inocência, ainda a quisesse castigar, que a desterrasse, expulsasse, para uma região gelada ou tórrida, para sempre.
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Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, c’o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.)

Que ele a colocasse entre as feras, onde poderia encontrar a piedade que não achara entre os homens. Ali, por amor daquele por quem morria ou sofria, criaria os filhos, que era recordações do pai e seriam consolação da mãe.
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Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

O rei bondoso queria perdoar Inês, comovido por suas palavras. Mas o povo obstinado, persistente e o destino de Inês (que assim o quis) não lhe perdoaram. Os que proclamavam que ela deveria morrer puxam suas espadas. Mostram-se valentes atacando uma dama.
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Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
C’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

Assim como Pirro se prepara com a espada (“ferro”) para matar Policena, por ordem do fantasma de Aquiles, e ela - mansa e serenamente -, movendo os olhos para a mãe, enlouquecida de dor, oferece-se ao sacrifício…
Aquiles, herói da guerra de Tróia, era invulnerável por ter sido submergido, logo ao nascer, na água da lagoa Estígia (Lagoa da Morte). Personagem da Ilíada de Homero, morreu durante a guerra de Tróia, quando foi atingido por uma seta no calcanhar, o único ponto vulnerável do seu corpo. Pirro, filho de Aquiles, teria sido aconselhado pelo fantasma (“sombra”) do pai a matar Policena, noiva do herói morto. Matou-a quando esta se encontrava sobre o túmulo de Aquiles.
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Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Do mesmo modo agem os cruéis assassinos de Inês. No pescoço (“colo”) que sustenta o belo rosto (“as obras”: o sorriso, o olhar, os movimentos do rosto) pelo qual se apaixonou (o deus Amor, Cupido, fez morrer de paixão) o príncipe, que depois a fará rainha, eles (os matadores) banham, lavam suas espadas e também as faces pálidas (“brancas flores”) e molhadas de lágrimas de Inês; atacavam enraivecidos, sem pensarem no castigo que o futuro lhes reservava.
Camões supõe que Inês foi degolada, como Policena oferecendo o pescoço ao golpe, e o sangue escorreu sobre seu rosto.
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Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

Naquele dia, o sol deveria ter-se escondido, como fizera quando Tiestes comeu os próprios filhos em um banquete servido por Atreu, para não ver o terrível crime. A última palavra de Inês - o nome de Pedro, o príncipe - ecoou longa e repetidamente através da região.
Camões iguala a crueldade da morte de Inês à da história de Atreu e Tiestes. Tiestes era filho de Pélops e irmão de Atreu. Seduziu a esposa do irmão. Atreu deu a comer a Tiestes os filhos que nasceram daquela união.
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 Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

Como uma flor colhida precocemente pelas mãos travessas (“lascivas”) de uma menina para colocá-la numa grinalda (“capela”), assim está Inês, sem perfume e sem cor. Morta, pálida, com as faces (“do rosto as rosas”) secas, murchas, sem rubor. O padrão de beleza feminino era uma combinação de branco na testa, colo, etc. (“branca e viva cor” ) e vermelho (“viva cor”) nas “rosas” do rosto.
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 As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

As ninfas do Mondego (rio de Portugal), durante muito tempo, lembraram chorando a morte de Inês. E, para sua memória eterna, as lágrimas transformaram-se numa fonte chamada “dos amores de Inês”, acontecidos ali. A fonte que rega as flores é refrescante porque é feita de lágrimas e de amores.

Fonte

Consílio dos Deuses

CONSÍLIO DOS DEUSES 

            Neste belo episódio, Camões destaca o valor dos portugueses, relatando-nos um episódio mitológico, no qual os deuses do Olimpo (deuses da mitologia romana) se reunem em "consílio glorioso" para decidir sobre o destino dos portugueses no Oriente. Não estava em causa a chegada dos portugueses ao Oriente, pois essa já tinha sido determinada pelo destino, tratava-se, sim, de decidir se os deuses ajudariam ou não os portugueses a chegar rapidamente e de um modo seguro à Índia.

            Júpiter, o pai dos deuses, serve-se de Mercúrio, o deus mensageiro, para convocar todos os deuses que vão chegando de todas as partes do planeta. Os deuses sentam-se segundo a hierarquia que dá mais importância aos deuses mais antigos.
            Quando todos os deuses estão sentados nos seus "luzentes assentos", Júpiter inicia o seu discurso, começando por lembrar a todos os deuses que os portugueses eram um povo guerreiro e corajoso que já tinham conquistado o país aos mouros e vencido por diversas vezes os temidos castelhanos. Refere, ainda, as antigas vitórias de Viriato, chefe lusitano, frente aos romanos e, termina o seu discurso, chamando a atenção dos deuses para os presentes feitos dos portugueses que corajosamente, lutando contra tantas adversidades, empreendiam importantes viagens pelo mundo e que, por isso, mereceriam ser ajudados na passagem pela costa africana.

            Baco, o deus do vinho, insurge-se de imediato contra os portugueses, pois sentia uma enorme inveja pela imensa glória que o destino lhes reservava. Na Índia prestava-se culto a Baco, e o invejoso deus temia que os seus seguidores rapidamente o esquecessem com a chegada dos portugueses.

            Vénus, a deusa da beleza e do amor, intervem em seguida, e apoia os portugueses, povo com o qual simpatiza por lhe fazer lembrar os romanos, quer pela língua, semelhante ao latim, quer pela coragem que demonstravam e pelas importantes conquistas que realizaram.

            Após as intervenções de Baco e de Vénus, todos os deuses se lançam numa feroz discussão comparada pelo poeta a uma temível tempestade, até que Marte, o deus da guerra, toma a palavra, e, dirigindo-se a Júpiter, relembra-lhe que era a ele, Júpiter, o pai dos deuses, que cabia a decisão, que, aliás, já estava tomada desde o início e, sublinha ainda, que não se devia dar ouvidos a Baco pois não passava de um invejoso. Marte simpatizava naturalmente com os portugueses por serem um povo guerreiro e também para agradar a Vénus com quem tinha tido no passado uma relação amorosa.
            Após ouvir as palavras de Baco, Júpiter inclinou a cabeça em sinal de consentimento, e desfez a reunião, tendo sido então tomada a decisão de ajudar os portugueses na sua viagem para a Índia.

terça-feira, 8 de maio de 2012

sobre as Proposição, Invocação e Dedicatória n'Os Lusíadas


Proposição:

            Na proposição, o poeta pretende exaltar:

            - “As armas e os barões assinalados”, ou seja, todos aqueles homens cheios de coragem que descobriram, “por mares nunca dantes navegados”, novas terras, indo mais longe do que aquilo que alguém podia esperar de seres não divinos, “Mais do que prometia a força humana”.

            - “Daqueles Reis que foram dilatando”, ou seja, os reis que contribuíram para que a fé cristã se espalhasse por terras que foram sendo descobertas, alargando assim o Império Português.

            - “E aqueles que por obras valerosas”, ou seja, todos os que são dignos de serem recordados pelos feitos heróicos cometidos em favor da pátria e que, por isso, nem mesmo a morte os pode votar ao esquecimento, “Se vão da lei da Morte libertando” pois foram imortalizados.

            Para tal compara os feitos dos portugueses aos de Ulisses, herói da Odisseia de Homero e aos de Eneias, o troiano que, na Eneida de Virgílio, chegou ao Lácio e fundou Roma.

            A proposição funciona como uma apresentação geral da obra, é uma síntese daquilo que o poeta se propõe fazer. Propor significa precisamente apresentar, expor, anunciar, mostrar. O poeta mostra aquilo que pretende ao escrever a epopeia: “Cantando espalharei por toda a parte”. O verbo cantar tem aqui o sinónimo de exaltar, enaltecer ou celebrar, através da poesia,

            se tiver talento para isso, tornarei conhecidos em todo o mundo

            os homens ilustres que fundaram o império português do Oriente

            os reis, de D. João I a D. Manuel, que expandiram a fé cristã e o império português

            todos os portugueses dignos de admiração pelos seus feitos.



Invocação

            Invocar significa apelar, pedir, suplicar.

            Nestas estrofes, Camões dirige-se às Tágides, as ninfas do Tejo, pedindo-lhes que o ajudem a cantar os feitos dos portugueses de uma forma sublime: “Dai-me agora um som alto e sublimado, / Um estilo grandíloco e corrente,” Tratando-se de um pedido, a Invocação assume a forma de discurso persuasivo, onde predomina a função apelativa da linguagem e as marcas características desse tipo de discurso – o vocativo e os verbos no modo imperativo - determinam a estruturado texto:

"E vós, Tágides minhas, (...) Dai-me (...) Dai-me (...)"

            Apóstrofe: A apóstrofe consiste na interpelação ou invocação de alguém ou de alguma coisa personificada, por meio de um vocativo. Repara: para invocar as ninfas, Camões utiliza o vocativo: "E vós, Tágides minhas, (...) Dai-me (...) Dai-me (...)"

            O vocativo pode estar presente numa frase quando se pretende chamar ou invocar alguém, utilizando-se para isso um nome ou expressão equivalente. O vocativo na frase é móvel, pois pode surgir no princípio, no meio ou no fim, mas está destacado por vírgulas.

            Anáfora: A Anáfora é uma figura de estilo que consiste em repetir a mesma palavra no princípio de várias frases ou versos. A forma verbal “Dai-me” (modo imperativo) surge repetida três vezes no início do verso: trata-se da figura de estilo anáfora.



Dedicatória

            A dedicatória é uma parte facultativa da estrutura da epopeia. Camões inclui-a n’Os Lusíadas ao dedicar a sua obra ao rei D. Sebastião. Nessa altura, D. Sebastião era ainda muito jovem e por isso era visto como a esperança da pátria portuguesa na continuação da difusão da fé e do império. D. Sebastião, rei de Portugal de 1568 a 1578, foi o penúltimo rei antes do domínio espanhol (1580-1640). O seu prematuro desaparecimento numa manhã de nevoeiro na batalha de Alcácer Quibir deu origem ao mito sebastianista, um sentimento muito português, que nasceu de uma lenda e que tem povoado o imaginário colectivo do nosso povo, ao longo dos séculos. A lenda sebastianista continua envolta numa rede de incertezas e mitos. Realmente, não é incontestável afirmar que D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578, ainda que essa seja a versão mais pacífica. O médico Mário Saraiva, por exemplo, publicou um estudo intitulado Dom Sebastião - Na História e na Lenda, no qual advoga que o rei não morreu nessa data, apoiando-se em documentos, nos quais se vêem escritas frases como esta: «Era um facto que ninguém vira morrer o rei». De acordo com a investigação de Mário Saraiva, D. Sebastião foi batalhar em Alcácer Quibir por ter sido vítima de uma cilada por parte de Espanha, no fito de levarem o jovem rei à morte, o que abriria caminho à dominação filipina em Portugal, a qual acabou por se concretizar. Segundo Mário Saraiva, a corte filipina chegou a intervir no sentido de os portugueses perderem a batalha de Alcácer Quibir, tentando matar D. Sebastião quando este pelejava em Marrocos. A cilada montada por Espanha não resultou e o rei refugiou-se num ermitério, após a batalha. Quando se apercebeu que tinha sido destronado, apelou ao Vaticano e fugiu para Vicenza, de onde foi expulso em 16 de Dezembro de 1600. Posteriormente, alojou-se em Nápoles, onde foi acolhido pelo conde de Lemos. De acordo com a investigação de Mário Saraiva, a prova está numa directiva do Papa Urbano VIII, de 20 de Outubro de 1630, onde se pode ler: «Fazemos saber que por parte do nosso filho D. Sebastião, rei de Portugal, nos foram apresentadas pessoalmente no Castelo de Santo Ângelo duas sentenças de Clemente VIII e Paulo V, nossos antecessores (...), em que constava estar justificado largamente ser o próprio rei e nesta conformidade estava sentenciado para lhe largar (o trono) Filipe III, rei de Espanha, ao que (este) não quis nunca satisfazer, pedindo-nos agora (que) tornássemos a examinar os processos (...)» Sem dúvida uma versão fascinante, que vem pôr em causa as teses que até agora vigoraram.

            Metáfora: O elogio ao rei está presente em toda a dedicatória, mas é desde logo visível nas primeiras três estrofes, salientando-se as várias metáforas, nomeadamente: “Vós, tenro e novo ramo florescente”, que realça a jovialidade do rei. A metáfora é um recurso estilístico que permite estabelecer uma relação de semelhança sem o uso de elementos específicos de comparação (“como”, “equivalente”, “parecido”, “semelhante”, “igual”).

            Aposto: O aposto é uma expressão que vem imediatamente a seguir a outra, normalmente entre vírgulas e que surge como uma caracterização ou explicação complementar. A expressão “poderoso rei” exerce a função de aposto, pois surge a seguir ao pronome “Vós”, adicionando-lhe uma informação que o torna mais completo.

            Sinédoque: Na caracterização de D. Sebastião, o poeta usa frequentemente a sinédoque – figura de estilo em que se troca a palavra que indica o todo de um ser por outra que indica apenas uma parte dele: “Vós, ó novo temor da Maura lança,” Embora só se refira à lança, o poeta pretende designar todo o exército de mouros.

fonte

segunda-feira, 7 de maio de 2012

personagens no Auto da Barca do Inferno


personagens
símbolos cénicos
classes ou grupos sociais / profissionais
pecados / virtudes
argumentos de defesa
percursos cénicos
destinos atribuídos
Fidalgo
- Pajem – simboliza a tirania e o desprezo pelos mais necessitados
- Cadeira – simboliza poder, o seu estatuto social
- Manto – simboliza a sua riqueza e vaidade (presunção)
fidalgo nobreza
- Vaidoso
- Infiel
- Presunçoso
- Tirano
- Não ajudava os outros
Acusações
- Viveu a seu belo prazer
- Foi tirano
- Desprezou e não ajudou os mais fracos
- Foi vaidoso
- Foi infiel
Gil Vicente pretende:
- Acusar a Nobreza de tirania e desprezo pelos mais necessitados
- Denunciar a infidelidade conjugal
- Demonstrar a vaidade e presunção dos nobres
- Deixa na outra vida, quem reze por ele
- Morreu sem estar à espera, sem contar
- É Fidalgo de solar (condição social – nobre)
Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo
Inferno
Onzeneiro
- Bolsão: simboliza a sua ganância/ avareza/ ambição desmedida/ o apego ao dinheiro
Onzeneiro/ nobre
- Pecador
- Ladrão
- Usuário
- Rico
Acusações
- Roubar, através dos Juros elevados
- Ter o coração cheio de pecados (ambição, maldade)
Gil Vicente pretende:
- Criticar a prática da usura, denunciando o enriquecimento rápido e fácil à custa dos mais necessitados
- Fazer ver às pessoas que o dinheiro que tem não lhes vale de nada, quando morrerem o importante é as boas acções que fizeram.
- Tem muito dinheiro em terra e poderá pagar a passagem
- O bolsão está vazio
Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo

Inferno

Parvo
Não tem
Parvo/ povo

- Malcriado/ grosseiro
- Inconsciente
- Simples
- Humilde
- Cómico/ engraçado
Acusações
Não é acusado
Gil Vicente pretende:
- Enaltecer os pobres de espírito que, graças à sua simplicidade e humilde obtêm a misericórdia divina
* A função desta personagem é fazer rir e vai acusar as personagens que estão para chegar.
Como não é acusado, não precisa de se defender.

Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo (fica no cais)





Fica no cais

Sapateiro
- Avental / formas dos sapatos – simbolizam a sua profissão e os seus pecados

Sapateiro/ povo

- Mentiroso
- Ladrão
- Falso religioso
- Malcriado
- Hipócrita
- Trocista
Acusações
- Roubou o povo
- É mentiroso
- Não viveu honestamente
- Foi excomungado
Gil Vicente pretende:
- Denunciar a exploração dos indivíduos da mesma classe
- A hipocrisia daqueles que praticam, sem fé, os diferentes actos religiosos.
- Morreu confessado e comungado
- Ouviu muitas missas
- Deu esmolas à igreja
- Assistiu à hora dos finados

Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo

Inferno

Frade
- Broquel/ capacete/ espada – simbolizavam o apego aos prazeres e vícios mundanos
- Hábito – Condição sacerdotal (classe social – clero)
- Florença – quebra dos votos de castidade, a sua imoralidade e infidelidade a Deus

Frade/ clero

- Alegre
- Bem-disposto
- Convencido
- Vaidoso
- Exibicionista
- Namoradeiro
- Infiel a Deus
- Mundano
Acusações
- Não cumpriu na totalidade as leis religiosas
- Quebrou os votos de castidade ao folgar com uma mulher
- Dedicava-se aos prazeres mundanos
Gil Vicente pretende:
- Criticar os membros do clero que não viviam em conformidade com os preceitos religiosos/ cristãos
- Denunciar a contradição entre os actos praticados e os valores morais que o clero devia assumir.
- Rezou muitos salmos
- (“Este hábito não me vale”)
- Dizia que foi muito importante
- Era bom esgrimista
Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo

Inferno

Alcoviteira
- Raparigas/ jóias/ Roupas/ estrato de cortiça/ casa movediça/ cofres de enleios/ armários de mentiras/almofadas/ frutos alheios - simbolizavam a sua actividade profissional e seus pecados (imoralidade, mentira, roubo)
Alcoviteira/ povo

- Imoral
- Mentirosa
- Ladra
- Fingida
- Hipócrita
Acusações
- Viveu “santa vida”
- Desencaminhou as raparigas
- Roubou e mentiu
Gil Vicente pretende:
- Criticar a prática da prostituição e seus agentes
- Denunciar a quebra dos votos de castidade dos membros do clero
- Serviu o clero (criava as meninas para os Cónegos da Sé)
- Foi martirizada, castigada e suportou tormentos
- Considerava-se “angelada” (protegeu as raparigas)

Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo
Inferno

Judeu
Bode – simbolizava o seu fanatismo religioso

Judeu/ povo

- Corrupto
- Avarento
- Fanático pela religião
- Malcriado
- Teimoso
- Persistente
Acusações
- Praticou o Judaísmo
- Tentou subornar os outros
- Não respeitou os dias de jejum e abstinência
- Profanou os locais sagrados
Gil Vicente pretende:
- Denunciar o fanatismo religioso dos Judeus e apego ao dinheiro
- Condenar a teimosia dos Judeus que recusavam em aceitar a salvação, representada em Jesus Cristo
- Não se defende, pois se o Judaísmo era a sua religião, era essa que ele tinha que respeitar

Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo

Inferno

Procurador / Corregedor
- Processos/ Vara/ Livros – simbolizavam a actividade profissional e os pecados (processos mal conduzidos, os subornos)

Corregedor – juiz
Procurador - advogado

- Corrupto
- Altivos
- Presunçosos
- Desonestos
- Mentirosos
- Falsos religiosos
- Injustos
- Parciais
Acusações
- Aceitar subornos
- Não ajudar os mais necessitados
- Mentirosos e injustos
- Enriquecem à custa dos outros
- Deixou-se corromper
- Não julgar com imparcialidade
- Não confessou os pecados todos
Gil Vicente pretende:
- Denunciar a prática fraudulenta da justiça e a corrupção de todos os agentes envolvidos nos processos judiciais
- Atingir todos os que se vão confessar e que ocultam os pecados mais graves.
- Quem aceitou os subornos foi a mulher
- Espera em Deus
- Confessou-se
- Agiu com justiça

Cais – Barca do Diabo – Barca do Anjo – Barca do Diabo
Inferno

Enforcado
- Corda – Representa a forma como o Enforcado morreu e a crítica aos oficiais da Justiça que condenavam injustamente

Enforcado/ povo

- Ingénuo
- Influenciável
- Surpreso
Acusações
Não existem
Gil Vicente pretende:
- Denunciar a cumplicidade dos altos funcionários da corte (Garcia Moniz) e dos criminosos.
Não existem

Cais – Barca do Diabo
Inferno
4 cavaleiros
- A Cruz de Cristo/ Os escudos/ as espadas – Simbolizam a fé e a luta em nome de Deus


Quatro Cavaleiros

- Confiantes
- Verdadeiros cristãos
- Corajosos
- Lutadores
- Orgulhosos na sua missão
Acusações
Não existem
Gil Vicente pretende:
- Transmitir a ideia de que só é verdadeiramente salvo aquele que viver uma vida dedicada a Cristo, desprendida de bens materiais
Não existem

Cais – Barca do Anjo

Céu