terça-feira, 18 de outubro de 2011

A galinha da vizinha...

            Se entre tudo o que era possível tivesse acontecido aquilo que eu desejava, então teria sido o rapaz mais feliz do mundo. Mas nunca aconteceu, e eu voltava para casa a olhar o chão, pois o céu já não me seduzia. À tarde ia jogar à bola com o resto da rapaziada e olhava para os meus ténis rotos e imaginava-me com os ténis lindos, de marca, que o meu vizinho recebera dois dias antes e que, provavelmente, nunca iria usar, de tantos que já tinha.

            Durante muito tempo via o Carlitos, o filho da vizinha, receber prendas, muitas e muitas. Via-o, também, a empilhá-las no quarto. Da janela do meu via-se lindamente a janela do dele e eu ficava a observá-lo. Via as prendas (algumas ainda dentro do embrulho) arrumadinhas nas prateleiras e pensava o que lá estaria dentro, o que faria com elas se fossem minhas. 

            Fui crescendo com esta mágoa: o Carlitos, cheio de embrulhos de mistério e aventuras e eu cheio de ar nos bolsos. Mas com ar não se brinca, não se cresce, não se desenvolvem os sonhos, é muito aborrecido ter só ar para brincar. Os meus pais tinham sempre uma desculpa para não me comprar coisas que eu queria, ou eram muito caras, ou tinha havido uma avaria no carro, ou tinha chegado a conta da farmácia, ou isto, ou aquilo, blah, blah blah. Por vezes odiava-os, apetecia-me vender tudo o que havia lá em casa e comprar qualquer coisa para mim. Eu até tinha melhores notas que o Carlitos, tinha cincos e quatros a tudo, enquanto que o meu vizinho se ficava pelos três, dois e, de quando em quando, um quatro. No entanto, quando saiam as pautas, os pais dele ofereciam-lhe logo imensas coisas por ele ter passado de ano, e era uma festa, havia brilho no ar e um cheirinho a coisas doces e maravilhosas. Os meus diziam-me que tinha cumprido a minha obrigação, davam-me os parabéns e pronto, o arraial morria ali.

            Quando acabámos o 12º ano, entrámos para a universidade. Eu entrei em Lisboa e o Carlitos foi para Coimbra. É claro que os pais do Carlitos compraram-lhe um carro todo bonitaço e um apartamento perto da faculdade. Os meus começaram a dar-me uma mesada que mal dava para nada e a lá tive de me ir desenrascando. O tempo passou e acabei por ir esquecendo o Carlitos, apaixonei-me pelo curso que tirei, pela rapariga com quem acabei por casar e neste momento tenho um filho pequenito que é o meu orgulho. Por vezes, de tanto amá-lo, apetecia-me engoli-lo num abraço.

            Os meus pais foram ficando mais velhotes e um dia mudaram-se da aldeia onde vivíamos para uma cidade próxima, pois necessitavam de cuidados médicos que não tinham na nossa terra natal. Venderam a casita e nunca mais voltei à aldeia onde cresci.  Passaram-se anos. 

            Ontem, ia no metro para o Chiado e vi uma cara que me pareceu conhecida, mas não liguei pois é coisa que me está sempre a acontecer. Tive, contudo, a sensação de que a dita pessoa me estaria igualmente a reconhecer e acabou mesmo por meter conversa comigo. Era o Carlitos.

            Por acaso tinha ainda uma horita antes de entrar ao serviço, pelo que fomos tomar uma bica ao centro comercial. Quase não falei neste nosso encontro pois a necessidade de palrar do Carlitos dominou. Não era o mesmo tipo de discurso que costumava ouvir-lhe em tempos, mas um ritmo mais sofrido de palavras que até me emocionou.

            Soube, então, que o rapaz ficara sem os pais num acidente de viação e que herdara toda a fortuna da família (já que era filho único). Soube que já se divorciara duas vezes e que começava a ficar farto de namoradas que só se aproximavam dele por saberem-no rico. Soube que nunca chegara a acabar o curso e que nunca chegara verdadeiramente a ter amigos.

            O que mais me impressionou neste nosso encontro foram os momentos finais da nossa conversa. Foi aí que fiquei deveras surpreendido com a vida em geral. O Carlitos confessou-me que sempre teve ciúmes de mim. (O quê?) Sempre viu os meus pais darem-me beijos e abraços de manhã, antes de irmos para a escola. (Os pais dele raramente lhe tocavam.) Sempre me viu sair de casa com amigos ou ir ter com eles para as mais diversas parvoíces de criança. (Os pais dele nunca o deixavam sair.) Sempre me viu jogar à bola com ténis rotos, mas a rir de alegria. (Chegou a rasgar os ténis por pensar que era isso que provocava o riso, mas os pais nunca o deixaram calçá-los.) Em suma, o Carlitos que eu ambicionava ser, afinal sentia exatamente o mesmo por mim. Lá diz o ditado: "a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha".



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João S N Matos

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